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123. Reflexão para o 21º domingo do Tempo Comum - Lc 13, 22-30 (Ano C)

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24.08.2019 | 9 minutos de leitura
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Evangelho Dominical
123. Reflexão para o 21º domingo do Tempo Comum - Lc 13, 22-30 (Ano C)

Neste vigésimo primeiro domingo do tempo comum, a liturgia retoma a leitura contínua do Evangelho segundo Lucas, após a pausa para a solenidade da assunção de Nossa Senhora, celebrada no domingo passado. Desta vez, o contexto é fornecido pelo próprio texto – Lc 13,22-30 – em seu primeiro versículo, o que torna desnecessária uma contextualização introdutória como costumamos fazer, uma vez que essa será feita na própria explicação do texto. Por isso, podemos já olhar diretamente para ele: “Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém” (v. 22). Como se vê, o contexto continua sendo o do caminho de Jesus para Jerusalém, acompanhado por seus discípulos e discípulas. Como o caminho constitui a seção narrativa mais longa de todo o seu Evangelho (cc. 9 – 19), Lucas faz questão de recordar esse detalhe para situar o leitor e evitar possíveis dispersões. Isso revela suas qualidades de um narrador exemplar que sabe prender a atenção dos seus leitores.


Além de nos situar no contexto, o primeiro versículo também aponta para a natureza do caminho percorrido por Jesus: se trata de um itinerário catequético, sobretudo, e não apenas geográfico. Enquanto caminha, Ele ensina e forma o seu discipulado. Ao dizer que “Jesus atravessava cidades e povoados ensinando”, o evangelista prefigura a natureza missionária e itinerante da Igreja, indicando que ela deve estar constantemente em saída. Enquanto caminhava e ensinava, Jesus se relacionava com as pessoas, promovia encontros. Seu ensinamento impressionava pelo conteúdo e pela sua maneira de ensinar, por isso, despertava curiosidade em pessoas anônimas e desconhecidas que aproveitavam para lhe fazer perguntas. Isso demonstra que Jesus era uma pessoa acessível e aberta, que escutava a todos, não se deixava aprisionar por círculos e grupos restritos.


O evangelista diz que “Alguém lhe perguntou: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” (v. 23). Certamente, a pergunta do interlocutor anônimo de Jesus foi motivada por algum ensinamento anterior; provavelmente esta pessoa estava ouvindo sua pregação e teve essa curiosidade. Se trata de uma pergunta que reflete um pensamento e uma preocupação muito difundida nos ambientes judaicos do tempo de Jesus e, posteriormente, também no cristianismo. Ora, nas escolas rabínicas da época, circulavam três correntes principais que apresentavam diferentes respostas para essa pergunta: uma primeira, afirmava que todos os judeus, pelo simples fato de pertencerem ao povo eleito, estavam automaticamente com a salvação garantida; uma segunda, pregava que não bastava fazer parte do povo eleito, mas era necessário observar a Lei de modo impecável e, por isso, somente um pequeno “resto de Israel” se salvaria; havia ainda uma terceira via: todos os judeus se salvariam e também os pagãos que aceitassem viver conforme a Lei poderiam se salvar.


Como de costume, Jesus não responde objetivamente ao seu interlocutor, mas lhe faz um convite ao esforço, à perseverança e à reflexão, através de uma pequena parábola, introduzida com a imagem da porta estreita: “Fazei todo o esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão” (v. 24). Embora neste contexto esteja aplicada a uma casa, essa imagem da porta estreita faz referência a uma pequena abertura que havia nos muros das cidades antigas. Como as cidades eram muradas, nos muros havia uma grande porta para entrada e saída de pessoas e transportes que, por motivos de segurança, era fechada à certa hora da noite e só abria no dia seguinte. Próximo à grande porta, geralmente, havia uma pequena abertura, chamada de “porta estreita”, suficiente para a entrada de apenas uma pessoa por vez, e ainda com dificuldades, usada por quem não conseguisse chegar antes que a grande porta fechasse ou que necessitasse sair antes da abertura, no dia seguinte. Algumas pessoas não conseguiam passar por ela, tendo que ficar expostas aos perigos do lado de fora. Essa imagem era muito aplicada na antiguidade para referir-se a coisas difíceis que exigiam esforço e às situações de perigo.


Aplicada a uma casa, ao invés de uma cidade, a imagem da porta estreita perde um pouco do seu sentido, mas sendo usada por Jesus, neste contexto específico da resposta ao interlocutor desconhecido, funciona muito bem. Ora, o que está em questão é o acesso à salvação, ou seja, ao Reino de Deus, e isto depende do acolhimento à Boa Nova de Jesus na vida da pessoa, com todas as suas consequências. Um pouquinho antes de iniciar o caminho para Jerusalém (cf. Lc 9,51), os discípulos tinham discutido entre si sobre quem era o maior entre eles; ao repreendê-los, Jesus tomou uma criança junto de si e apresentou-a como exemplo, dizendo que é necessário fazer-se pequeno para acolher a sua mensagem (cf. Lc 9,46-47). A imagem da porta estreita é, portanto, uma retomada dessa temática e uma nova advertência aos discípulos, já que somente as pessoas pequenas passavam com facilidade pela “porta estreita”. É importante, recordar que, na dinâmica do caminho, mesmo quando Jesus entra em contato com outros personagens, os destinatários principais dos seus ensinamentos são sempre os discípulos, já que o caminho é, sobretudo, uma alegoria do seu programa formativo. Assim, Ele propõe mais uma vez a necessidade de fazer-se pequeno para lhe pertencer. Temos aqui, portanto, mais uma demonstração excepcional das qualidades pedagógicas de Jesus.


O acesso ao Reino definitivo exige esforço e compromisso. Por isso, ao invés de dar uma resposta direta e exata ao interlocutor, Jesus fez um alerta para a necessidade de aderir ao programa do Reino, antes que seja tarde demais. Eis a continuação da parábola: “Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vós, do lado de fora, começareis a bater, dizendo: “Senhor, abre-nos a porta!” Ele responderá: Não sei de onde sois. Então começareis a dizer: “Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças”. Ele, porém, responderá: ‘Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos que praticais a injustiça! (vv. 25-27). Embora seja apresentado um dono de casa severo, o centro do ensinamento aqui não é a sua severidade, mas uma demonstração daquilo que conta e o que não conta para alguém fazer parte do Reino. Logo, não temos aqui um anúncio de condenação ou castigo, mas uma advertência sobre as credenciais para ter as portas do Reino abertas. Antes de tudo, Jesus diz que não é suficiente ter comido e bebido com ele e nem ouvir o ensinamento, se tais atitudes não se traduzem em prática de justiça. Na época da redação do Evangelho, a celebração fraterna da fração do pão, versão primitiva da atual Eucaristia, já estava consolidada e, temos aqui uma chamada de atenção para quem não concilia essa celebração com uma conduta ética e justa. Em outras palavras, o acesso ao Reino não depende das práticas cultuais. Quem é praticante de injustiças está automaticamente excluído do Reino, mesmo que seja frequentador assíduo das mais variadas expressões cultuais.


A exclusão do Reino corresponde a uma vida sem sentido, e não propriamente a um castigo: “Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no Reino de Deus, e vós, porém, sendo lançados fora” (v. 28). Essa linguagem ameaçadora, tão frequente em Mateus, é rara em Lucas, o evangelista da misericórdia; ele a emprega aqui por fidelidade à fonte utilizada. O choro e o ranger de dentes é uma contraposição à alegria e a paz, características básicas da comunidade do Reino, sobretudo na perspectiva de Lucas. Embora o foco de Jesus e do evangelista seja a construção da comunidade do Reino, temos aqui também uma clara crítica e denúncia às pretensões de exclusivismo do povo judeu em relação ao acesso à salvação, o que fica evidente pela seguinte afirmação: “Virão homens do Oriente e do Ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus” (v. 29). Como o que garante o acesso ao Reino é a prática da justiça e, por outro lado, o que exclui é prática da injustiça, podem participar da mesa do Reino pessoas dos quatro cantos da terra, desde que abracem o programa de vida de Jesus e sejam adeptos da justiça. Pertencer a uma raça ou a uma religião não determina a pertença ou exclusão do Reino de Deus; o que conta é a conduta justa.


A conclusão é uma máxima proverbial que mostra que os critérios de Deus não seguem à lógica humana: “E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos” (v. 30). Embora essa afirmação não seja exclusividade do Evangelho segundo Lucas, ela se encaixa muito bem na sua teologia que prevê, desde o início, uma inversão completa de ordem e de valores (cf. Lc 2,51-52). Funciona também como uma chamada de atenção aos judeus que imaginavam ter prioridade no Reino pelo simples fato de fazerem parte do povo eleito. Hoje, o mesmo pensamento pode ser aplicado também a muitos seguimentos do cristianismo que imaginam ter prioridade no Reino apenas pela pertença ou assiduidade em certas práticas religiosas. O critério autêntico de pertença a Jesus e seu Reino é e será sempre a prática da justiça.







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