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17. Como professar e pensar hoje a fé na ressurreição?

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18.03.2016 | 7 minutos de leitura
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17. Como professar e pensar hoje a fé na ressurreição?

“Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação e também vã a nossa fé” (1Cor 15,14)


 


Um ponto crucial da fé católica é o que tange a ressurreição de Jesus, já que os cristãos, crendo em Jesus Cristo Ressuscitado dentre os mortos, professam-no como o Vivente, garantia da vida eterna a todo ser humano.


Ao longo dos anos, este tema já foi abordado por diversos ângulos, ora com maior relevo, ora com menos interesse. A fé cristã, como fé herdada e transmitida desde os apóstolos como Tradição, recebeu os relatos das Escrituras e neles baseou sua fundamentação. São relatos teológicos, elaborados quase sempre com finalidade catequética, que não visam a reportar um fato, mas a dar o fundamento da fé – crida, professada e testemunhada por aqueles que com Jesus viveram e/ou experimentaram a novidade de sua presença gloriosa.


Esses relatos têm caráter normativo e singular. Por meio da experiência dessas testemunhas (1Cor 15,3-8), os cristãos receberam a fé e também puderam crer e experimentar a presença do Ressuscitado. Assim, diz-se que a experiência desses primeiros tem estatuto único já que eles conviveram com Jesus (exceto Paulo) e puderam ver que o Ressuscitado, que fez irrupção em suas vidas, era o mesmo Nazareno, que havia comido e bebido com eles, falado-lhes do Pai e do Reino, e morrido na cruz. Perceberam a continuidade da vida de Jesus – que o Ressuscitado é o mesmo crucificado e não outro (Lc 24, 36-43) –, como também puderam notar a novidade de sua vida depois da ressurreição. Sabiam que sua ressurreição não é a revivificação de um cadáver, que algum dia tornaria a morrer, mas é uma vida gloriosa, com um corpo novo, por vezes nem reconhecido por eles (Lc 24,13-35; Jo 20,14).


Assumida pela Igreja nascente, a Ressurreição será também fonte de sustentação da fé dos Primeiros Pais. Os chamados Padres da Igreja vão se debruçar sobre alguns pontos em torno desta questão, no desejo de elucidar a fé cristã e rebater críticas vindas do paganismo.


A antropologia dualista grega, em confronto com a antropologia judaica, que via o ser humano como uma unidade, não pode admitir a ressurreição de Jesus Cristo e o túmulo do relato vazio. Enquanto os judeus relatam o túmulo vazio, exatamente para dar conta desta antropologia unitária, os gregos querem derrubar tal versão, uma vez que o corpo não pode ressuscitar, pois é pura materialidade e cárcere da alma. Atrelada a esta polêmica da questão da ressurreição de Jesus, estará o tema da ressurreição dos mortos, pois Cristo é “primícias de todos que morreram” (1Cor15,20). Os relatos bíblicos vão ser lidos e relidos na tentativa de harmonizar dados sobre a ressurreição de Jesus e no intento de se compreender a implicação antropológica e soteriológica deste evento.


Apesar da beleza das narrativas das Sagradas Escrituras, estas estão permeadas de dados míticos. São relatos legendários, que, se não forem des-mitificados, não falam mais ao coração do crente de hoje. Um novo jeito de ler essas narrativas se faz fundamental. Uma nova hermenêutica se faz urgente.


Percebendo o caráter racional-positivista da modernidade, Bultmann (teólogo protestante) e outros da Teologia Liberal fizeram um caminho importante, dando grande contribuição para a reflexão teológica. Mas, ao se tentar des-mitificar os relatos da ressurreição, perdeu-se em muito o caráter objetivo da mesma. Daí, algumas perguntas primordiais vão surgir: “Terá de fato havido algo de objetivo a partir do qual o crente possa afirmar o evento da ressurreição? Será ela um evento ou uma experiência psicológica feita por alguns seguidores de Jesus?”.


Essas questões vão ganhar uma resposta importante especialmente com os teólogos Pannemberg e Ranher. Indo na contramão das conclusões de Bultmann, estes teólogos reafirmam a objetividade da ressurreição, garantindo-a como evento histórico, apesar de escatológico e não mensurável na história. A contribuição desses teólogos será importante, pois, contra as duas vertentes dopsicologismo e do historicismo da ressurreição, a historicidade passa a ser pensada por outra vertente, que não aquela da racionalidade moderna. O Cristo vivo manifesta-se a seus seguidores e essa manifestação, ainda que não possa ser mensurada, é real e significativa na vida deles.


Garantir a objetividade do evento da ressurreição é ponto fundamental para a fé cristã. O Cristo Vivo, aquele que foi ressuscitado pelo poder do Pai, faz irrupção na história. O evento da ressurreição não é uma inventividade de discípulos frustrados, que, uma vez decepcionados com a morte do mestre, criam – por meio de um recurso psicológico de fundo glorioso – uma forma de se manterem na esperança. As aparições do Ressuscitado têm um caráter externo, que gera uma experiência nos discípulos. Não são eles que criam ou inventam essa manifestação. Ela é real, concreta. E essa experiência de fé dos discípulos será ponto de partida da fé da Igreja, inclusive para pensar a Antropologia cristã, a Cristologia e a Eclesiologia, a reflexão sobre a Trindade (ou seja, a Revelação de Deus) e a Escatologia. Toda a fé da Igreja nasce do evento da ressurreição, compreendido como continuidade e ruptura com o Calvário. O Ressuscitado é o Nazareno que continua na história, mas de modo novo.


Ao afirmar a objetividade da ressurreição, nem de longe, a fé cristã deseja afirmar a revivificação do cadáver de Cristo. Esta questão é de pouca importância e não altera o evento fundante no qual os cristãos põem toda sua esperança. Afirmar a ressurreição como evento é dizer que esta não é mito, ou algo sem historicidade, garantindo simultaneamente seu caráter escatológico, ou seja, fora do tempo e do espaço. Esse evento aparece no querigma cristão anunciado pelos apóstolos, nos relatos do túmulo vazio e nos relatos de aparição, uma vez compreendidos como relatos teológicos. São textos cuja linguagem diz o evento, ainda que sob aparência mítica. Por meio de expressões próprias, a Escritura relata esse acontecido histórico-escatológico. Dessa forma,




  • garante a conformidade com o AT, situando o evento no lugar teológico da fé dos antepassados (Conforme as Escrituras);

  • lembra a ação de Deus em favor de seu justo – dando a autoria da ressurreição ao Pai,garantindo sua fidelidade, e situando a ressurreição como evento histórico (Terceiro dia);

  • dá conta de uma antropologia não dualista, mas que pensa corpo e alma em unidade (corporeidade do ressuscitado);

  • fala da ressurreição por meio de metáforas que visam a falar do evento (exaltação, ressurreição e vida).


Ao perceber esses elementos presentes nos relatos bíblicos, ficam algumas perguntas: “Como compreender a fé pascal? O que de fato se deu? Como pensar um evento escatológico, mas em referência com a história?”. Todas essas interrogações estão conectadas à compreensão acerca da ação de Deus na história. O Deus transcendente age na imanência, não contra as leis do mundo, mas a favor dele, para salvá-lo (Pannemberg). Para compreender isso, é preciso sair da camisa-de-força dos pressupostos da ciência moderna, não os ignorando, mas indo além deles. A ressurreição, como a nova criação, é pensada como ação de Deus que, fora do espaço e do tempo, age escatologicamente, deixando marcas de sua irrupção no espaço e no tempo.


Assim, o Ressuscitado– aquele que ressurgiu dentre os mortos pela ação de Deus–, vencendo a morte, garantiu sua presença continua no meio do mundo (Mt 28,28), fazendo ainda hoje irrupção na vida dos seus. E todo aquele que nele crê abre-se para fazer também a experiência da ressurreição. De forma nova, mas concreta e eficaz, cada cristão vai também experimentando o Vivente que dá testemunho do amor do Pai pelos seus.







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