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220. Da liturgia ritual à liturgia existencial

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15.04.2020 | 8 minutos de leitura
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Crônicas
220. Da liturgia ritual à liturgia existencial

“Quero misericórdia e não o sacrifício” (Os 6,6)


 


“Consentistes que minha pessoa
Fosse da esperança um teu sinal,
Uma prova de que a vida é boa
E de que a beleza vence o mal.
Tudo que se foi de mim, mas não perdi,
Senhor da vida,
Os que já chorei e os que ainda estão por vir, oferto a ti”
(Caetano Veloso)


É páscoa!


Apesar de a gente não ter podido celebrar liturgicamente a páscoa como de costume por causa da pandemia da covid-19 que assola o mundo inteiro, a Igreja continua a nos convidar a viver a páscoa. Nossa ausência nos eventos da Semana Santa, especialmente na vigília pascal, não nos impede de celebrar a passagem da morte para a vida com toda sua intensidade. Os ritos e os símbolos da noite santa são um caminho iniciático, ou seja, um trampolim para nos impulsionar no mergulho no mistério da fé cristã. Mas, para além desses ritos que a Igreja nos oferece, o verdadeiro lugar da celebração da páscoa não é o templo, mas é o mundo. Basta recordar o que disse Jesus à mulher Samaritana: “Vem a hora em que nem nesta montanha, nem em Jerusalém, adorareis. Vem a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. E esses são os adoradores que o Pai procura” (Jo 4,21-22). Com essas palavras, o evangelista João deslocou o culto e a liturgia dos lugares tradicionalmente sagrados e colocou-os no lugar que eles realmente deveriam estar. O mundo é o templo onde a maior de todas as liturgias, a vida, acontece todos os dias. No seu altar, milhões de vítimas – em comunhão com o Crucificado – são imoladas, mas são também ressuscitadas na ação amorosa e dedicada de quem toma a defesa dos fracos, dos mais ameaçados por essa sociedade injusta. Nesse altar, imolamos nossa vida em união com o Nazareno. Fazemos dela ação de graças ao Pai, que reconhece seus adoradores em cada pessoa que semeia a esperança e a paz. Porque a defesa da vida é o verdadeiro culto que agrada a Deus, a Igreja insiste em dizer “é páscoa”, mesmo quando os templos estão fechados ou vazios, e a morte campeia pelas praças e ruas.


Para que a gente continue celebrando a páscoa, a liturgia do domingo próximo (18 de abril de 2020) nos oferece o texto de Jo 20,19-31, composto por dois relatos: a experiência da páscoa feita pelos discípulos no anoitecer do dia da ressurreição e a experiência feita por Tomé na semana seguinte.


A primeira parte, Jo 20,19-23, mostra os discípulos a portas fechadas por medo dos judeus. Quando o dia glorioso parece findar, vestígios de esperanças surgem nos corações amedrontados. As trancas e os ferrolhos impostos pelo medo não são suficientes para impedir a manifestação do Ressuscitado que chega anunciando a paz. De sua boca não sai nenhuma revolta em relação à injustiça sofrida, nenhuma invectiva contra seus malfeitores, nenhuma reclamação acerca do abandono sofrido da parte de seus seguidores. “A paz esteja convosco!”: é isso que o Ressuscitado diz aos discípulos, pois na ressurreição não há lugar para mágoas, nem para rancor, muito menos para desavenças entre amigos.


Concomitantemente à palavra de paz, Jesus lhes mostra as mãos e o lado, que o evangelista fizera questão de dizer que havia sido transpassado e dele saíra sangue e água (Jo19,34). As marcas do Crucificado testificam que é mesmo Jesus quem lhes dirige uma palavra animadora. Não se trata de uma miragem, nem de uma alma penada, muito menos de um fantasma. É o amigo de caminhada, aquele cuja vida fora ceifada no altar da cruz, que lhes interpela e lhes dirige uma palavra de encorajamento. Em seguida, Jesus faz o envio: “Como o Pai me enviou, assim eu vos envio” (Jo 20,21). E, como toda missão exige coragem, uma força que vence a morte arranca-os do meio dos escombros da desilusão: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). Jesus conferiu aos seus discípulos o poder transformador do amor, manifestado na capacidade de perdoar, assim como ele próprio havia perdoado traições e abandonos.


Findou o dia e a noite veio, pois a noite da existência sempre vem. Quem fez a experiência do Ressuscitado está apto a viver nessas trevas sem se desesperar, pois sabe que a luz da ressurreição brilha como sol do meio dia. Mas nem todos tiveram a mesma oportunidade de experienciar a presença do Ressuscitado. É o caso de Tomé, que não estivera com eles quando Jesus se lhes manifestou (Jo 20,24). Esse discípulo quer bem mais que ouvir alguém dizer que Jesus está vivo. Quer fazer ele próprio sua experiência pessoal com o Ressuscitado. Apesar de muitos pregadores o recriminarem por exigir essa prerrogativa para crer,Jesus não o repreende. Ao contrário, entra de novo no ambiente fechado pelo medo, dirige palavras de paz e se oferece gratuitamente a Tomé, mostrando as mãos e o lado feridos.Muito diferente do que a iconografia cristã retrata, Tomé não mete o dedo nas chagas. A palavra do Ressuscitado lhe basta. Sua resposta ao encontro com Jesus é uma bela profissão de fé: “meu Senhor e meu Deus”.


Sabendo que os discípulos estavam a portas fechadas por medo dos judeus – aqui identificados não com o povo judeu, mas com as autoridades judaicas que perseguiram Jesus e tramaram sua morte – e que a profissão de fé significava o martírio, vemos um belo caminho do discipulado traçado no relato joanino. O caminho de fé dos discípulos e das discípulas de Jesus é este: do medo, que leva ao fechamento em si mesmo, à coragem da profissão de fé, que obriga a proclamar Jesus como o Vivente.


Dizer “meu Senhor e meu Deus” como Tomé significa assumir a vida do Crucificado-Ressuscitado. Significa celebrar no altar da vida o seu mistério. Significa se tornar sinal de bem-aventurança para aqueles que não podem vê-lo, que não podem experimentá-lo. Não há nenhum privilégio de Deus (cura, milagre ou prosperidade) reservado aos que creem, a não ser o privilégio de crer. A experiência do encontro com Jesus, que todo cristão é chamado a fazer, deve levar à fé aqueles que ainda não creem. Será grande bem-aventurança se eles acreditarem na vida, no ser humano e num mundo mais justo, por meio de nosso testemunho. Serão bem-aventurados, pois nem terão precisado ver o Ressuscitado para cultivar o amor que sustenta a fé cristã e a esperança que ela gera.Serão capazes de um salto qualitativo surpreendente. Esses bem-aventurados são todos que respeitam e reverenciam a sacralidade que este mundo esconde. São aqueles que não professam com a boca a fé cristã, mas celebram no altar da vida a liturgia do amor, que é o sacrifício agradável a Deus. Esses são os adoradores que o Pai procura.


Nesses tempos terríveis de covid-19, quando atravessamos a noite escura do abandono e do descaso de nossas autoridades, viver a bem-aventurança proposta pelo evangelista João não é assistir à missa pela TV ou pela internet, muito menos receber a eucaristia em sistema drive thru ou a bênção do Santíssimo espalhada pelos ares da cidade por meio de um helicóptero. A bem-aventurança diz respeito à coragem ou à audácia de viver a páscoa fora dos ritos tradicionais, de não precisar da liturgia cristã para fazer o encontro com o Cristo, de dispensar os símbolos costumeiros da fé para encontrar Jesus no exercício da solidariedade com os sofredores da sociedade, cujas vidas estão sendo ceifadas nessa pandemia. Em vez da páscoa litúrgica, no momento interessa mais a páscoa existencial. Uma não dispensa a outra, é claro; mas a segunda tem total supremacia sobre a primeira.


Ignorando o que diz e faz aquele que usa a faixa presidencial, os adoradores que o Pai procura ficam em casa. Celebram a páscoa poupando muitas vidas do contágio do vírus. Encontram o Ressuscitado na reclusão de sua quarentena. São bem-aventurados: creem na presença do Ressuscitado sem precisar, no momento, dos sinais litúrgicos tradicionais. Quando a noite escura passar e amanhecer o novo dia surgir, voltaremos às nossas igrejas, não só para celebrar as liturgias das quais estamos privados agora, mas para celebrar o encontro dos irmãos que creem que a vida vence a morte.







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