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194. Reflexão para a Solenidade Epifania do Senhor ( Mt 2,1-12)

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02.01.2021 | 12 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
194. Reflexão para a Solenidade Epifania do Senhor ( Mt 2,1-12)
Celebramos neste domingo a solenidade da Epifania do Senhor. Epifania quer dizer manifestação, deriva do verbo grego “epifaino” (επιφαινω), cujo significado literal é manifestar, aparecer, resplender. Nesta solenidade celebramos, então, a manifestação de Deus em Jesus como luz, guia e Senhor de todo o universo. O evangelho proposto, todos os anos, é Mt 2,1-12, o relato da visita dos magos do Oriente, os primeiros personagens do Evangelho segundo Mateus a reconhecer Jesus como rei; eles saíram de longe para adorar à criança recém-nascida, configurando-se como uma das primeiras surpresas da obra de Mateus. É importante observar que, embora a celebração recorde a manifestação de Deus, o texto apresenta um movimento inverso: é o mundo com sua pluralidade de raças e culturas, representado pelos magos do Oriente, que manifesta sua adesão e aceitação ao senhorio de Jesus, indo ao seu encontro.

O texto evangélico referido é muito rico em teologia e simbologia, além da grande beleza que possui. É um dos textos que melhor revela as habilidades teológicas e literárias do evangelista. Certamente, é o episódio mais recordado de todo o evangelho da infância de Mateus (Mt 1–2). Infelizmente, ao longo da história, foi interpretado mais folcloricamente do que teologicamente. Daí a dificuldade de termos uma interpretação mais fidedigna ao sentido real do texto, tendo em vista que as interpretações folclóricas, inclusive adotadas pelo cristianismo oficial, estão muito enraizadas no imaginário popular, a começar pela transformação dos magos em reis.

O primeiro passo para uma compreensão mais adequada, considerando a necessidade de recuperar o sentido teológico original do texto, é distanciar-se da romântica imagem do presépio. Partimos, então, dos primeiros versículos: “Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, perguntando: ‘Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’” (v. 1-2). Ao contrário de Lucas, Mateus não narra o momento do nascimento de Jesus, mas apenas o menciona como um fato já acontecido, dando, porém, informações muito importantes de tempo e espaço: nasceu em Belém, no tempo do rei Herodes.

A princípio, já é possível perceber a intenção do autor com essa informação: está surgindo uma alternativa de poder e realeza diferente do sistema vigente; há um deslocamento do centro para a periferia; começa uma descentralização, o que vem a indicar que o poder exercido até então na capital Jerusalém, está ruindo. É claro que é necessário o complemento da informação para termos clareza da oposição que o autor quer apresentar entre o poder centralizado e o projeto alternativo que surge: “nasceu um rei para os judeus” (v. 2); esse dado indica que alguém estava reinando de maneira ilegítima, no caso, Herodes. As indicações de tempo e espaço também servem para legitimar a historicidade do homem Jesus de Nazaré. Ora, os cristãos da comunidade de Mateus não tinham conhecido o Jesus terreno e, por isso, poderiam questionar a sua existência. Com esses dados, o evangelista quer reforçar que Jesus foi um homem concreto, gente de carne e osso que nasceu e viveu em um período histórico determinado.

A outra grande novidade do relato, percebida ainda no primeiro versículo, está na peculiaridade dos personagens apresentados pelo autor: “alguns magos do Oriente” (v. 1). Ora, os magos, em grego “magoi” (μαγοι), eram estudiosos orientais, responsáveis pela interpretação dos sonhos e pela leitura dos fenômenos da natureza e dos astros. No mundo greco-romano, e sobretudo em Israel, os magos eram vistos como feiticeiros e charlatões, operadores da magia. Eram os sacerdotes de cultos pagãos da Pérsia e Babilônia; pertenciam a uma categoria condenada pelo judaísmo e pelo cristianismo das origens. De fato, dois episódios nos ajudam a perceber o quanto a magia era condenada na Bíblia: a saga de Balaão, no Antigo Testamento (cf. Nm 22–24), e a tentativa de compra do dom do Espírito Santo pelo mago Simão, no Novo Testamento (cf. At 8,9-24). Portanto, os magos eram pessoas abomináveis à luz da religião de Israel e dos primeiros cristãos.

Para encobrir a rejeição que estes personagens tão controversos poderiam sofrer, a tradição cristã dos primeiros séculos resolveu caricaturá-los, atribuindo-lhes características que o texto bíblico não cita, como a realeza. Ao invés de ajudar na compreensão do texto, esse tratamento real aos magos terminou distorcendo o sentido aplicado pelo evangelista. É importante reforçar que esses personagens são fruto da inteligência e criatividade teológica do evangelista, ou seja, os magos não são personagens reais, mas simbólicos. A intenção do evangelista e de sua comunidade ao apresentá-los era exatamente mostrar que também aos distantes e sem reputação Deus se revela, e são exatamente esses os que com mais sinceridade buscam o verdadeiro rosto de Deus, tão difícil de ser reconhecido na pessoa de uma frágil e pobre criança, como as elites, religiosa e política, não foram capazes de reconhecer. Ainda sobre o revestimento dado pela tradição, é importante recordar que o texto bíblico não faz menção alguma ao número dos magos; não diz que eram três, como propagou a tradição, com base apenas no número dos dons por eles oferecidos: ouro, incenso e mirra. Além do número três, sem fundamento no texto bíblico, a tradição também lhes deu nomes (Gaspar, Baltasar e Melchior) e meio de transporte (camelos). Por isso, como afirmamos no início, é necessário distanciar-se da imagem fantasiosa do presépio para compreender bem o texto de Mateus.

Está mais do que clara a oposição: os magos vieram de longe para adorar ao Deus verdadeiro. Foram a Jerusalém, mas lá não era possível encontrar o verdadeiro Deus porque a elite religiosa o tinha monopolizado e distorcido; como gentios, os magos eram barrados pelas paredes do templo que separava os pagãos dos judeus piedosos. Com a pergunta “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?” (v. 2a), os magos afirmam que não reconhecem a autoridade de Herodes, ou seja, o consideram um rei ilegítimo; com a afirmação “nós vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (v. 2b), eles desafiam também a elite religiosa, mostrando que as paredes do templo já não conseguem mais conter esse Deus que se revela em todo o universo e a todos os povos. Portanto, os poderes político e religioso vigentes são desmascarados com o nascimento de Jesus.

Enquanto Herodes exercia o poder pela força e a violência, Jesus exercerá a sua autoridade pelo serviço; enquanto a relação com Deus, monopolizado pela elite religiosa, era mediada por uma casta sacerdotal corrompida e através de sacrifícios e ofertas, em Jesus é Deus quem se manifesta plenamente, sendo Ele mesmo quem à humanidade se oferece, ao invés de exigir oferendas. Por isso, “o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda Jerusalém” (v. 3), pois viam que um novo tempo estava surgindo, novas relações estavam sendo gestadas, uma sociedade alternativa estava nascendo, enfim, o Reino de Deus estava começando e, portanto, todos os reinos humanos deveriam desaparecer.

As preocupações de Herodes e de “toda Jerusalém”, compreendida como a elite política, religiosa e intelectual predominantes, ou seja, sacerdotes e escribas, leva-os a um medíocre pacto (vv. 4-6), o qual se repetirá posteriormente e levará Jesus à morte de cruz, com as mesmas motivações: o medo que as autoridades tinham de um autêntico “Rei dos Judeus”. Portanto, a reunião de Herodes com os sacerdotes e mestres da Lei prefigura o conluio que levará Jesus à morte, no final do Evangelho. No nascimento, o pacto é feito entre Herodes e toda Jerusalém; na paixão será entre Pilatos e o sinédrio, mas são as mesmas forças, com as mesmas práticas. Como último recurso, Herodes tenta a fraude e o suborno, exigindo que os magos retornem a ele quando encontrarem o menino (vv. 7-8).

Ajudados pela Escritura e pelo próprio Herodes, os magos foram a Belém e lá, de fato, encontraram o que estavam procurando: Jesus, Deus e luz que ilumina todos os povos, inclusive eles, operadores de práticas abomináveis aos olhos do judaísmo. A reação deles não poderia ser outra: “Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande” (v. 10). A luz de Deus, até então sufocada por uma religião ritualista e segregadora, agora ilumina o universo inteiro e o convida a alegrar-se com isso, pois significa o fim de todas as barreiras, o desmoronamento de todos os muros e sinais de separação.

Certamente, a alegria deles aumentou ainda mais “Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe” (v. 11a). Por serem pagãos e magos, eles não podiam adentrar além do pátio do templo reservado para os gentios e, portanto, não podiam contemplar nem adorar verdadeiramente. Agora, é tudo diferente: eles entram e vêem porque é o próprio Deus quem se deixa ver e conhecer em Jesus e na comunidade cristã, personificada em Maria, a mãe. Essa passagem é muito importante, pois em todo o primeiro capítulo de Mateus houve uma centralidade e importância dadas à figura de José. Nesta cena, ele não é mencionado, mas apenas Maria, como imagem da comunidade cristã, lugar privilegiado do encontro com Jesus e da verdadeira adoração. Certamente, Mateus teve uma intenção especial com esse detalhe: quis mostrar que Deus se deixa conhecer parcialmente na criação, representada pela estrela (vv. 2.9.10), de maneira mais clara ele se revela na Escritura (vv. 4-6), mas para fazer uma autêntica experiência com ele é necessário reunir-se em comunidade, personificada em Maria (v. 11).

É necessário recordar o que o texto diz, desde o início, sobre o objetivo dos magos: adorar o rei dos judeus (v. 2). Tinham empreendido um longo caminho, inclusive errando a rota, pois foram primeiro a Jerusalém, mas lá não o encontraram, devido a estrutura rígida e decadente da religião oficial. Ao contrário de Lucas, Mateus tem uma visão extremamente negativa sobre Jerusalém e o templo. Para Mateus, Jerusalém é sinônimo de trevas, é sinal de morte e ameaça para o reinado de Deus. Inclusive, pós a ressurreição, para encontrarem o Ressuscitado, os discípulos deverão retornar à Galileia (Mt 28,16-20). Por isso, somente deslocando-se para a periferia os magos puderam, de fato, experimentar o Deus que tanto buscavam. Aqui, está o ápice do contraste que o evangelista quer apresentar: o templo perdeu seu sentido, Deus não habita mais nele; é necessário retirar-se para a periferia, inserir-se na comunidade e, assim, adorar e experimentar a beleza desse Deus que quer apenas misericórdia e amor, e não mais sacrifícios.

Quando perceberam que encontraram aquele que tanto buscavam, “ajoelharam-se diante dele e o adoraram” (v. 11). Essa atitude mostra que, finalmente, saciaram-se, encontraram sentido para suas vidas e, portanto, esvaziaram-se de si, oferecendo tudo o que tinham. Não ofereceram porque lhes fora pedido, como exigia o templo, mas porque sentiram-se confortados e correspondidos. Enquanto os poderes oficiais se uniam para matar, os magos, como figuras dos marginalizados, se prostram unidos para adorar. A adoração verdadeira, ou seja, o autêntico culto, não depende mais de um espaço específico delimitado pela religião; é feita na própria casa; a única exigência é que seja feita em “espírito e em verdade” (cf. J 4,24).

Os presentes oferecidos pelos magos, ouro, incenso e mirra (v. 11b) são simbólicos e revelam, por um lado a identidade de Jesus e, por outro, a nova relação entre a humanidade e Deus. O ouro, revela que Jesus é rei enquanto o recebe, mas ao mesmo tempo diz que todas as nações podem participar do seu reino, enquanto foi oferecido por pagãos; assim, o privilégio de Israel como povo escolhido perde o seu sentido, pois a pertença ao Reino de Deus não é determinada por raça ou cultura, mas pela sinceridade de coração. O incenso representa a divindade de Jesus, ou seja, é o reconhecimento de que Ele é Deus, mas a humanidade não precisa mais dos sacerdotes do templo para se comunicar com Ele, pois qualquer pessoa e em qualquer lugar pode fazer isso. A mirra é o mais ambíguo dos três presentes: é, antes de tudo, o sinal da humanidade de Jesus, uma vez que era um perfume usado pelos judeus para embalsamar os cadáveres, como acontecera com o corpo do próprio Jesus, quando morreu; porém, no Cântico dos Cânticos, em diversas passagens, a mirra é citada como o perfume da esposa amada (cf. Ct 5,5.13) e, com muita probabilidade, Mateus quis dizer que a esposa amada de Deus deixou de ser Israel e passou a ser toda a humanidade.

Na conclusão do texto, encontramos uma afirmação muito significante para a comunidade cristã de todos os tempos: “Avisados em sonho para nãos voltarem a Herodes, os magos retornaram para sua terra seguindo outro caminho” (v. 12). Seguir outro caminho é a primeira atitude de quem faz um encontro autêntico com Jesus. Desse encontro, surge uma nova maneira de relacionar-se com Deus e com o próximo. Consequentemente, brota uma nova mentalidade que rejeita qualquer forma de poder que oprime e mata, inclusive amparado pela religião, como o complô de Herodes com os sacerdotes do templo. Para viver bem a nova relação com Deus é necessário desviar-se das antigas rotas e estruturas, como fizeram os magos, ao perceberem que Jerusalém só oferecia exploração e perigo. A experiência autêntica com Deus, portanto, provoca no ser humano a necessidade de percorrer novos caminhos, o que pode ser compreendido como uma nova maneira de viver, com novas atitudes parecidas com as de Jesus.

Concluindo, podemos deixar como reflexão permanente: uma vez que concluímos o tempo do Natal, quais os caminhos que iremos percorrer de agora em diante? Se serão os caminhos de sempre, ou seja, se continuarmos com as mesmas maneiras de pensar e compreender as coisas, principalmente a nossa relação com Deus e o próximo, Jesus não nasceu em nós... e, se não nasceu, não poderemos manifestá-lo ao próximo!